Quinta-Feira, 09 de Julho de 2020

Pazuello militariza Saúde e vira executor de Bolsonaro


Ministro interino, general Eduardo Pazuello militarizou pasta e se destaca como executor de tarefas do presidente
Ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, em Brasília 09/06/2020 REUTERS/Adriano Machado Foto: Reuters

Na portaria do Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro prometeu, na última segunda-feira, espaço na agenda do Ministério da Saúde a uma mulher que anunciava a cura da covid-19 à base de alho cru. O número de mortos pela pandemia se aproximava dos 40 mil. Das diretrizes do governo na área às audiências do dia a dia da pasta, entre piadas e canetadas, Bolsonaro passou a acumular, na prática, a função de ministro. Desde o início do avanço da doença, dois titulares deixaram o cargo por não cumprirem suas ordens contra o isolamento social e a defesa do uso da cloroquina no tratamento dos pacientes, substância sem comprovação científica, e um terceiro virou pária na comunidade científica ao tirar do site oficial planilhas de vítimas.

O ortopedista Luiz Henrique Mandetta foi afastado do comando do ministério por defender o isolamento social e rejeitar o uso da substância proposta por Bolsonaro. O substituto, o oncologista Nelson Teich, ficou apenas um mês na cadeira por manter o discurso de Mandetta. Já o atual ministro interino, general Eduardo Pazuello, não tem experiência no setor. Mas justamente ele era do "banco de talentos" do Exército, área em que Bolsonaro sempre recorre quando precisa de um "solucionador de problemas" e "gestor", que na linguagem da caserna também podem significar "cumpridor de ordens".

Ao executar tarefas determinadas pelo Planalto, que seus antecessores se recusaram, Pazuello bateu de frente com segmentos da saúde e enfrenta críticas por atrasar e impedir a divulgação dos dados da covid-19 e mudar a forma de contabilizar as vítimas da pandemia, como queria Bolsonaro. A medida antidemocrática, considerada um crime de responsabilidade por juristas, levou empresas jornalísticas a se unirem para dar transparência às informações de contaminados e mortos.

A "missão" de Pazuello de acatar determinações que vão contra autoridades internacionais da saúde é uma contradição com base num episódio recente. No mês passado, quando o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, encaminhou à Procuradoria-Geral da República pedido de partidos para recolher o celular de Bolsonaro, no âmbito das investigações de possível intervenção do presidente na Polícia Federal, militares do governo propagaram uma máxima dos quartéis: "ordem absurda não se cumpre". No caso da pandemia, as ordens de Bolsonaro não são consideradas diferentes disso.

"Mudar metodologia? Para que isso, se as secretarias estaduais não mudaram e continuarão a usar a metodologia anterior?", questionou o ex-ministro da Saúde do governo Dilma Rousseff, senador Marcelo Castro (MDB-PI). "Isso cria instabilidade, insegurança na população que não acredita mais nos números do Ministério da Saúde e só aumenta a desconfiança com a falta de transparência."

Apesar de o ministro interino, que é tratado pelo presidente como efetivo, ter passado sem traumas por uma sabatina de quatro horas no Congresso, na semana passada - para explicar a nova metodologia -, a conta de sua atuação na Saúde já chegou às Forças Armadas. Desde o fim da ditadura, os militares construíram uma imagem de técnicos que atuam com números. Ele acabou com a transparência da divulgação do número diário de mortos na pandemia.

O ex-ministro da Secretaria de Governo, general Santos Cruz, afirmou que o governo mudou a metodologia sem fazer consultas prévias à comunidade científica e explicar a todos o motivo. "Se quer mudar por questões técnicas, sem problemas. Mas tem de avisar antes. Isso é regra básica. Pode ser que o novo método seja bom. Mas, o fato é que primeiro tem de informar e explicar a metodologia para a comunidade médica e científica e só depois mudar", disse ao Estadão. "Não é problema se a metodologia está certa ou errada. É que, se inverte a ordem, você gera confusão e uma confusão dessa não é boa para o governo, nem para o Ministério, nem para as Forças Armadas, e muito menos para a população, que precisa ter confiança na informação", ressaltou.

Santos Cruz avalia que a "confusão" e as "desconfianças" ficam ainda maior quando toda a questão está politizada e autoridades vinculam uma decisão de governo de divulgação dos dados ao horário de exibição de um jornal televisivo. "Isso não tem sentido, não tem cabimento. A maneira como foi feita gera desconfiança e descrédito", criticou. "O assunto já está extremamente politizado. O medicamento foi politizado, o vírus foi politizado. Quando se tem excesso de politização e se faz uma alteração dessas, você dá margem a tudo que é especulação."



Fonte: TERRA.COM.BR