Sexta-Feira, 23 de Outubro de 2020

O Risco da Segunda Onda


Estamos em risco iminente da 2ª onda do populismo orçamentário, apimentado pelo negacionismo em relação ao meio-ambiente e hiper-ideologização na educação
O risco é de uma segunda onda orçamentária populista (Carolina Antunes/PR/Flickr)

Não, esse não é mais um texto sobre os riscos da segunda onda de infecção pelo Covid-19. O risco que vou relatar aqui é de uma segunda onda orçamentária populista, que leve à explosão dos gastos públicos e mais descontrole fiscal, com as consequências que já sabemos. Também não estou pregando uma falsa equivalência entre as duas ondas, como ficará claro.

A primeira onda teve origem em 2008/09, como resposta à crise financeira mundial. Depois de seis anos de governo que combinou excelentes resultados na área social com uma gestão responsável do orçamento e da área fiscal. Mostrando que as duas coisas podem ser conciliadas, o Presidente Lula — sendo mais justo, uma parte do seu entorno, que guardou certas crenças — viu na política anticíclica para responder à crise de 2008 a oportunidade de colocar em prática as suas teses. A partir desse momento, foi claro que Henrique Meirelles perdeu o domínio da condução da política econômica, ou ao menos teve que dividi-la com outras facções.

Como resultado o Brasil iniciou uma trajetória de grande crescimento do peso do BNDES, do BB, CEF e dos investimentos públicos diretos, que não são necessariamente ruins, mas, no nível e velocidade em que aconteceram, levaram uma situação sem sustentabilidade. O tesouro subsidiou centenas de bilhões para o BNDES aplicar em linhas para grandes empresas, por exemplo. Deixando claro que uma política anticíclica foi adotada por todos os países desenvolvidos do mundo, para sustentar a economia e aliviar a recessão. A questão é que aqui ela não foi pensada para ser provisória, mas a vitória de uma “visão” que tinha ficado seis anos “abafada” pelo apego á competente e responsável “Carta aos Brasileiros”.

O resultado colateral dessa política anticíclica foi a possibilidade da eleição de Dilma em 2010. Na minha opinião, a eleição mais consequente das últimas décadas no Brasil, até agora, pois, fosse o resultado diferente, é difícil pensar nos protestos de 2013, na crise financeira de 2014 em diante, até difícil pensar que o presidente atual seria quem é. Vale lembrar que uma boa parte do mercado, em 2009, fazia a leitura de que José Serra era mais “intervencionista” que Dilma e embarcou na eleição desta, emprestando visões positivas com artigos e análises, que deixavam claro o que se ouvia nas reuniões fechadas: “Dilma é Lula de saia e ele vai continuar comandando. Vamos voar como o Redentor”. A leitura do “cavalo de Troia” justificada pela “marolinha”, que mudava a lógica de respeito fiscal, “passou batida”. Deu no que deu.

Agora estamos em risco iminente da segunda onda do populismo orçamentário, apimentado pelo negacionismo em relação ao meio-ambiente e hiper-ideologização na educação, ser deflagrado internamente novamente com a “cobertura” de fatores externos: a pandemia é desculpa perfeita de uma política anticíclica, que na verdade converge com a visão de Estado grande, que o Presidente nunca escondeu ter. Como no caso da “marolinha”, ela deve vir para ficar por muito tempo. Nesse contexto, é evidente que o Ministro Paulo Guedes não tem mais controle sobre a política econômica e fiscal, e, pela falta de habilidade política deste, a situação é bem mais grave que no caso do Meirelles. Novamente o mercado não viu outro óbvio “cavalo de Troia”: um ministro ultra-liberal, que comandaria o presidente, que não era nada daquilo que pregava na economia. E de novo emprestou sua influência e peso ao projeto, com seus artigos e análises. Desde bem cedo nas eleições, uns seis meses antes do primeiro turno. Em resumo, o mercado acreditou que Bolsonaro tinha mudado em relação á economia e não ligou para as crenças que tinha certeza que ele mantinha. Vai dar no que vai dar.

Além desses erros de cálculos do mercado, que nunca saberemos se tiveram algum peso nas eleições, outro ponto é comum nas duas ondas de populismo orçamentário: os mesmos personagens de um núcleo do centrão, aqueles especializados em grandes orçamentos, estão a postos para alugar o seu apoio. Deixando claro aqui que não me refiro a Rodrigo Maia, por exemplo, nem a maioria dos membros nos partidos estruturados, mas aos que florescem nesses momentos de populismo orçamentário e que pouco se importam com preceitos básicos da democracia liberal. Estes, e o seu ecossistema, vão surfar nessa segunda onda.

E o mercado? Bom, o mercado vai ter que esperar. Devemos entrar em uma “quarentena da racionalidade”, possivelmente sem Trump para nos dar guarida e que talvez só acabe em 2026, se o orçamento aguentar a esticada até 2022 e pular essa barreira, como Dilma conseguiu em 2014. Por enquanto, recomendo ler o brilhante artigo de Sérgio Abranches: “Os Demônios do Brasil” para ajudar na reflexão se não vale a pena investir em uma mudança de postura, para o nosso próprio bem e para o bem dos nossos filhos.

 

*Paulo Dalla Nora Macedo é economista e investidor em inovação


Fonte: EXAME