Segunda-Feira, 26 de Outubro de 2020

Disputa política pode atrapalhar vacinação contra Covid, diz infectologista


O governador de SP, João Doria, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, e representante do laboratório Sinovac durante assinatura de acordo no Palácio dos Bandeirantes — Foto: Reprodução/TV Globo

A "contaminação política" da vacinação contra o novo coronavírus pode atrapalhar o entendimento da população sobre a importância da imunização e comprometer a campanha nacional no Brasil, aponta o infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunização.

Nesta quarta-feira (14), o Ministério da Saúde apresentou o cronograma para vacinação contra a Covid-19 considerando apenas a vacina da AstraZeneca, desenvolvida pela Universidade de Oxford. Segundo o secretário de Saúde do governo de São Paulo, Jean Gorinchteyn, o governo federal não liberou dinheiro para a compra da vacina CoronaVac, desenvolvida pela empresa da China Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.

O governo de São Paulo tenta negociar para que a chinesa CoronaVac receba verba federal para ser distribuída pelo SUS, caso seja comprovada a eficácia na terceira fase de testes.

Em entrevista à GloboNews nesta quinta-feira (15), o especialista Renato Kfouri defendeu a necessidade de investimento em uma comunicação unificada, respaldada na ciência, sobre o processo de aprovação das vacinas e da campanha nacional, para garantir segurança à população.

“A contaminação política dessa discussão realmente não ajuda, atrapalha, e eu espero que com a vacinação a gente conte com uma comunicação melhor com a população do que nós tivemos até o momento em relação a tratamento, em relação a medidas preventivas", disse o infectologista.

"Senão, nós vamos ter dificuldades em vacinar a nossa população por desconfiança de uma vacina, de outra, de um partido político xenofóbico. Esse vai ser talvez um grande problema para nós enfrentarmos", concluiu o especialista.

'Aumentar leque de oportunidades'

 

Para Kfouri, o contexto da pandemia no Brasil exige a ampliação das possiblidades de imunizantes e acordos.

"Se tivermos oportunidades de termos acordos bilaterais ou multilaterais com as produtoras isso só vai nos ajudar. Ajudar em ter uma gama maior de vacinas, de opções, de quantidades diferentes, eventualmente com perfis diferentes de resultados de segurança e eficácia. O momento não é eliminar, ou desprezar, ou não contar. Temos é que agrupar mais fornecedores e aumentas o nosso leque de oportunidades", afirma o especialista.

O médico ainda destaca que a ciência é quem deveria pautar as decisões dos governantes e dos programas de saúde públicos, e não o contrário. “Toda vez que a política entra na saúde, e a gente tem visto vários exemplos em diversos países, isso vai na contramão do que a ciência gostaria”, pondera.

Entretanto, ele não acredita que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) possa colocar entraves ao andamento dos testes e aprovação da vacina chinesa por conta de embates políticos entre o governador Joao Doria (PSDB) e o presidente Jair Bolsonaro.

“Não acredito que a Anvisa, um órgão extremamente sério, reconhecido internacionalmente, com histórico nesse país de fidedignidade nas suas decisões, de absoluta transparência e clareza, terá algum tipo de problema.”

 


Fonte: Globo