Quinta-Feira, 03 de Dezembro de 2020

Declaração do Brics tira apoio para vaga do Brasil no CS da ONU


Presidente da República Jair Bolsonaro, durante reunião da XII Cúpula de Líderes do BRICS (Marcos Corrêa/PR/Flickr)

A declaração final da cúpula do Brics, realizada na terça-feira, 17, se tornou mais um obstáculo para que Brasil, Índia e África do Sul desempenhem papéis mais relevantes na ONU. Em um movimento distinto de anos anteriores, quando houve apoio de Rússia e China, a ampliação do Conselho de Segurança e uma vaga para os outros três membros ficaram mais distantes.

“Quando algo entra ou sai da declaração final, nunca é por acaso. São documentos preparados ao longo de meses”, afirmou Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP e autor de um livro sobre o Brics. “Se algo fica no texto ao longo de 11 anos e de repente sai, é por uma razão específica.”

Criado em 2009, o Brics é um grupo informal que permite a Rússia China, Índia, Brasil e África do Sul maior poder no cenário internacional. Os países fazem cúpulas anuais – a última ocorreu de forma virtual.

Para Stuenkel, a Rússia não retiraria esse trecho por iniciativa própria, pois em comunicações anteriores não manifestou desconforto. “É muito provável que seja iniciativa chinesa, especialmente porque a relação com o Brasil e com a Índia passa por uma crise.”

Apesar de apoiar uma reforma na ONU, a China se opõe à entrada no Conselho de Segurança de rivais regionais, como Japão e Índia aliados do Brasil na busca pela ampliação do órgão, explica o diplomata Fausto Godoy, que serviu em Mumbai, Pequim e Tóquio. “Há dois países (Índia e Japão) que querem de qualquer maneira entrar e há a China e a Rússia, que não querem ampliar porque perderão poder”, afirmou Godoy. Procurada, a Embaixada da China no Brasil não se manifestou.

Em uma de suas declarações na cúpula, o presidente Jair Bolsonaro disse que o Brics precisa “apoiar as legítimas aspirações de Brasil, Índia e África do Sul a assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU”.

A reforma do Conselho de Segurança, estabelecido após a fundação da ONU, em 1945, é uma velha reivindicação da diplomacia brasileira. No entanto, segundo o diplomata Roberto Abdenur, ex-embaixador na China e na Alemanha, a atual gestão do Itamaraty rompeu com a tradição da política externa conduzida até o final de 2018 de lutar por uma vaga permanente.

“Não creio que o Itamaraty tenha ficado desagradado com a mudança na declaração do Brics, pois não havia feito esforços para a reforma do Conselho de Segurança nos últimos dois anos.”

Putin elogia masculinidade de Bolsonaro

Jair Bolsonaro divulgou na noite de terça-feira, 17, um vídeo em que o presidente russo, Vladimir Putin, faz elogios às “qualidades masculinas” e à “coragem” do presidente brasileiro. Segundo Bolsonaro, a fala de Putin ocorreu ao término da cúpula do Brics, encontro de chefes de Estado de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, realizada por videoconferência em razão da pandemia de coronavírus.

Putin presidiu a cúpula deste ano e, na fala em russo, fez referência ao enfrentamento da pandemia e ao fato de o brasileiro ter sido infectado e desenvolvido sintomas da covid-19.

“O senhor expressou as melhores qualidades masculinas e de determinação. O senhor foi buscar a solução de todas as questões antes de tudo na base dos interesses do seu povo, deixando para depois as soluções ligadas ao problema de sua saúde pessoal. Isso é para todos nós um exemplo de relacionamento corajoso com o cumprimento de seu dever e a execução de suas obrigações na qualidade de chefe de Estado”, disse Putin, conforme a tradução divulgada por Bolsonaro.

O russo, conhecido pelo aspecto mal-encarado, continuou. “Não foi fácil para todos nós trabalharmos este ano, mas você também enfrentou pessoalmente esta infecção e passou pelas provações com muita coragem. Desejo a você tudo de melhor, em primeiro lugar, saúde. Todos nós vimos como não foi fácil para o senhor.”

 


Fonte: EXAME