Quarta-Feira, 27 de Janeiro de 2021

Idoso com Covid-19 morre sem conseguir leito adequado para tratar doença


Homem de 66 anos de Naviraí estava em UTI, mas precisava de vaga que tivesse máquina de hemodiálise
Alcides tinha 66 anos e faria aniversário em abril - Arquivo Pessoal

A três meses de completar 67 anos, Alcides Cavéquia morreu vítima de complicações da Covid-19 por não ter sido transferido para um leito adequado a sua complicação. 

O paciente estava intubado em uma unidade de terapia intensiva (UTI) de Naviraí, mas necessitava de uma vaga no setor crítico que possuísse máquina de hemodiálise. 

Sem conseguir o leito, o aposentado morreu e o Ministério Público de Mato Grosso do Sul promete abrir investigação sobre o fato. Essa pode ser a primeira pessoa de Mato Grosso do Sul a morrer pela doença sem receber atendimento adequado.

Segundo uma das filhas de Alcides, a biomédica Karla Cavéquia, 27 anos, o pai foi internado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no dia 5 de janeiro, já em estado grave, e dois dias depois foi solicitado a transferência dele para um leito com a máquina de hemodiálise.

“No dia 7, se não me engano, já começaram a pedir transferência para algum lugar para fazer hemodiálise, só que a gente não conseguiu. Comecei a correr atrás, tentei transferência para Três Lagoas, tentei transferência para Dourados, mas estava cheio, Campo Grande também. Aqui em Três Lagoas descobri que tinha uma vaga e eu tentei, só que na hora que eles foram aceitar, a vaga foi negada e eu não consegui transferir e aí meu pai começou a piorar”, contou a biomédica, que mora em Três Lagoas e tentou a vaga à distância.

Karla disse que a negativa de Três Lagoas se deu porque o município não é referência para o tratamento de hemodiálise para pacientes de Naviraí. 

“Eu só tentei a transferência para Três Lagoas porque eu liguei e perguntei se tinha vaga com hemodiálise e a moça me disse que tinha uma única vaga, então tentei fazer de tudo para ser o mais rápido possível. Mas na hora de aceitar, negaram falando que Três Lagoas não era referência com hemodiálise”.

Depois da negativa, os familiares partiram para a Justiça para tentar um leito por meio do vaga zero, quando o paciente tem prioridade de tratamento. 

“Como não consegui, no sábado entrei com uma ação com a Defensoria Pública, devia ter feito antes, mas achei que ia conseguir uma vaga. Foi solicitado [pelo hospital] desde o dia 7 [um leito], eles tinham que ter conseguido uma vaga. O defensor foi muito bom, ele fez de tudo para fazer o mais rápido possível e deu total atenção para o meu pai, ele tentou agilizar tudo para o processo ir mais rápido, ele disse que em média demora três dias para o juiz aceitar. Mas aí, no dia 10, meu pai não resistiu. Do dia 9 para o dia 10 ele entrou em estado gravíssimo e conseguiu chegar até de manhã”.

“O meu pai estava respondendo bem ao tratamento no pulmão, ele só morreu porque não tinha nenhuma vaga para fazer hemodiálise. Ele só precisava da máquina de hemodiálise e não conseguiram transferência para nenhum lugar para isso”, lamentou a biomédica.

Ainda segundo Karla, em Naviraí não há máquina de hemodiálise, nem na rede pública e nem na rede privada.

A reportagem tentou contato com o prefeito de Três Lagoas, Angelo Guerreiro, para entender o motivo da recusa do paciente, mas até o fechamento desta matéria não conseguiu retorno.

Por causa desse vai e vem de pedidos, e de a família ter acionado a Justiça para tentar salvar o idoso, o Ministério Público ficou sabendo do ocorrido e promete abrir inquérito para investigar em que circunstâncias isso ocorreu e onde houve falhas.

“Pelo menos vai diminuir a possibilidade de isso acontecer com outra pessoa. Ninguém merece passar por isso. Não desejo isso para ninguém. Ele estava sendo forte. Estava resistindo. Só não está comigo agora por não conseguirem um leito para ele”, declarou a filha sobre a investigação.

VAGA

Segundo a filha mais nova, quando foi dado a notícia da morte do pai, também foi contato que, naquele dia, foi aberta uma vaga para transferência do paciente, o que não pode ser feito.

“Segundo os médicos, ele tinha conseguido uma vaga, mas no mesmo momento que abriu uma vaga o médico me ligou dizendo que ele não tinha resistido. Então não sei se essa vaga era mesmo real ou se disseram para minha irmã para acalmá-la. Pode até ser que essa vaga tenha existido, mas foi muito tarde, eles pediram no dia 7 e só no dia 10 que liberaram em Dourados. E mesmo assim, pelo estado que ele estava não conseguiria chegar. Quando o médico me ligou para dizer que ele faleceu, disse que talvez ele não chegasse nem a Dourados, porque demorou muito para conseguir”, declarou a filha.

COVID

O aposentado morava com a filha mais velha, Stephanie Cavéquia, e um neto. A família ainda não sabe como ele pode ter contraído a Covid-19. O idoso não trabalhava, mas era ativo e costumava fazer seus afazeres, respeitando as medidas de biossegurança.

“Vivia de máscara e usava álcool nas mãos o tempo todo. Mas não foi o suficiente. Pode ser sido no mercado, no banco, na lotérica. Não sei como isso aconteceu. Ele precisava resolver as coisas, só dependia dele”, contou Karla.

Nem a irmã mais velha, nem o sobrinho, que tinham contato diário com Alcides, contraíram a doença. Como a biomédica morava em outra cidade, foi Stephanie quem o acompanhou durante seus últimos dias.

De acordo com uma das filhas, o idoso tinha pressão alta e estava acima do peso. Ele foi diagnosticado no dia 28 de dezembro, mas teve poucos sintomas nos primeiros dias.

“Ele já estava com sintomas há três dias antes de fazer o exame, mas os sintomas estavam muito brandos, só estava com corpo dolorido, nem febre ele estava. Ele fez todos os exames, o médico passou remédios para ele, fez um raio-X e estava normal, o pulmão dele estava ótimo. Não sei se porque os exames dele estavam normais e o raio-X também, o médico pediu para ele voltar só uma semana depois para o retorno. E uma semana depois, quando ele voltou, que foi no dia 5, os médicos falaram que ele já estava em estado grave e que tinha que ter levado ele antes. Meu pai não foi porque o médico disse para ele voltar uma semana depois só. Quando ele voltou ele já estava em estado grave e na hora já internaram ele e em poucas horas já intubaram”, lembra.

A última vez que Karla viu o pai foi no Natal, quando ela foi até Naviraí passar a data com a família. “Graças a Deus pude ver o meu pai, se eu soubesse que era a única vez, teria passado mais tempo colada nele”.

Um dia depois da morte de Alcides, um irmão dele que morava no Paraná também faleceu, da mesma doença. 

“Meu tio estava no Paraná. Ficou internado quase 90 dias. Estava intubado, fazendo hemodiálise. Ele faleceu um dia depois do meu pai. Eles não tiveram contato. Pegaram em locais diferentes”, relatou.


Fonte: Correio do Estado