Terca-Feira, 21 de Setembro de 2021

Bolsonaro prepara reforma ministerial com líder do centrão na Casa Civil e recriação do Trabalho


O mandatário disse nesta quarta-feira (21) que as mudanças ocorrerão até a próxima semana

Em seu momento de maior fragilidade no governo, Jair Bolsonaro (sem partido) prepara uma reforma ministerial com a previsão de dar mais poder ao centrão, bloco político que era criticado por apoiadores do atual presidente e que se tornou sua base de apoio no Congresso.

O mandatário disse nesta quarta-feira (21) que as mudanças ocorrerão até a próxima semana. 

Elas serão feitas em meio a uma série de pressões sobre Bolsonaro, incluindo mais de cem pedidos de impechment na Câmara, perda de popularidade, desvantagem sobre Lula nas pesquisas eleitorais para 2022 e a investigação da CPI da Covid no Senado.

O desenho que estava definido até esta quarta envolve trocas em três pastas: o senador Ciro Nogueira (PP-PI) vai para a Casa Civil no lugar do general Luiz Eduardo Ramos, que passa para a Secretaria-Geral, hoje ocupada por Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

Já Onyx, pelos planos atuais, ocupará o Ministério do Trabalho, que será recriado com a divisão do Ministério da Economia, de Paulo Guedes. 

A expectativa é a de que as mudanças se concretizem até sexta (23), com a publicação da medida provisória que recriará a pasta do Trabalho.

Há ainda uma indefinição no governo a respeito do nome que terá o novo ministério e se ele acumulará ou não as funções da Secretaria da Previdência, que hoje faz parte da Economia.

A aliança de Bolsonaro com o centrão, buscada pelo presidente no ano passado diante de uma série de pedidos de impeachment que já se acumulavam na Câmara, enterrou de vez o discurso bolsonarista, explorado à exaustão durante a campanha de 2018, de que o presidente não se renderia ao que chamava de a velha política do "toma lá, dá cá".

Para atender o centrão, o governo faz promessas de liberação de bilhões em emendas parlamentares e agora prepara até a recriação de ministérios, contrariando outro discurso da campanha, o do enxugamento da máquina pública.

Hoje o governo Bolsonaro tem 22 ministérios, 7 a mais do que os 15 prometidos na campanha eleitoral -sob a gestão de Michel Temer (MDB), seu antecessor, eram 29 ministérios. 

A administração atual chegou a ter 23 ministérios, mas o Banco Central perdeu este status com a aprovação de sua autonomia.

Um dos objetivos da troca é organizar a base do governo e dar mais visibilidade a ações de Bolsonaro que serão tomadas daqui em diante, como a reformulação do Bolsa Família, consideradas peça-chave para a campanha à reeleição do mandatário em 2022.

Além disso, o presidente pretende se aproximar ainda mais do centrão. O senador Ciro Nogueira é presidente nacional do PP e um dos principais líderes do bloco de partidos que sustenta a base de apoio a Bolsonaro no Congresso.

"Estamos trabalhando, inclusive, uma pequena mudança ministerial, que deve ocorrer na segunda-feira, para ser mais preciso, para a gente continuar aqui administrando o Brasil", disse Bolsonaro em entrevista à rádio Jovem Pan de Itapetininga, também transmitida por suas redes sociais.

A possível troca na Casa Civil também contempla a insatisfação no Congresso com o atual ministro, o general da reserva Luiz Eduardo Ramos. Bolsonaro estava sendo pressionado a trocar o general da Casa Civil e estudava fazer essa alteração. ?

Amigo de Bolsonaro que ganhou força ao coordenar a última dança das cadeiras no governo, em março, Ramos vinha sendo alvo de queixas de parlamentares, inclusive do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), correligionário e muito próximo a Ciro Nogueira. 

Auxiliares de Bolsonaro relataram que Ramos demonstrou insatisfação com a mudança.

Bolsonaro sabe que precisa melhorar sua articulação politica, especialmente no Senado, onde a CPI da Covid avança sobre o governo e onde duas significativas indicações do Palácio do Planalto -a do atual advogado-geral da União, André Mendonça, para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) e a da recondução de

Augusto Aras ao comando da PGR (Procuradoria-Geral da República). No Planalto, Ramos não era próximo da ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, que, por sua vez, precisava de alguém com maior trânsito entre os senadores para ajudá-la na articulação política do Executivo.

Além disso, havia no Planalto o temor de que Ciro Nogueira se distanciasse do governo. Ele já vinha aparecendo cada vez menos em defesa de Bolsonaro na CPI da Covid e, na semana passada, não escondia sua insatisfação com a liberação de recursos para o governo do Piauí. 

O governador Wellington Dias (PT) é seu adversário político. O senador aceitou o convite para assumir a Casa Civil ainda nesta terça. Nogueira seria candidato ao Governo do Piauí, mas, com a decisão de virar ministro, já admite a pessoas próximas que deve abrir mão de entrar na disputa.

O presidente e seu governo vêm assistindo a uma escalada de impopularidade. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), hoje seu principal adversário, ampliou vantagem nas intenções de voto para 2022 e cravou 58% a 31% no 2º turno, segundo pesquisa mais recente do Datafolha.

Diante deste cenário, a pressão sobre Bolsonaro cresceu no Congresso. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o vice-presidente da Câmara, deputado Marcelo Ramos (PL-AM), disse que as ameaças de Bolsonaro sobre a não realização das eleições de 2022 são um "claro crime de responsabilidade".

Ele afirmou que estuda a possibilidade de acatar um pedido de impeachment no exercício provisório da presidência. Recentemente, ele pediu para ter acesso aos pedidos protocolados na Câmara.


Fonte: Correio do Estado