Terca-Feira, 18 de Maio de 2021

Além da Covid, Brasil teve 55 mil mortes por outras doenças


Os dados constam de levantamento feito com base em números do estudo Excesso de Óbitos no Brasil

Em 2020, o Brasil registrou 275.587 óbitos a mais que o previsto para o ano. 

Desse total, 220.469 foram vítimas da covid-19, mas outros 55.117 morreram por outras doenças. 

Os dados constam de levantamento feito com base em números do estudo Excesso de Óbitos no Brasil, da organização em saúde Vital Strategies, no painel do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

As estatísticas indicam que, além das perdas pelo vírus, a crise sanitária causou mortes de quem poderia sobreviver em outra situação. 

Com o isolamento social, necessário para frear o novo coronavírus, houve dificuldade de atender pacientes crônicos, realizar exames e fazer diagnósticos precoces de doenças graves. 

A extensão desse problema no sistema de saúde brasileiro assusta a população e preocupa médicos e especialistas em outras enfermidades, que já trabalham com projeções de até 50 mil casos de câncer para este ano por causa do abandono de tratamento ou atraso na identificação da enfermidade. 

"A gente atribui isso, em parte, ao cancelamento ou adiamento dos procedimentos médicos que deveriam ter sido feitos, como exames", afirma a coordenadora do estudo e professora da UFMG, Fatima Marinho. 

"Quando os pacientes chegam ao hospital, já estão em situação mais grave". Segundo ela, as pessoas têm receio de ir ao hospital com medo de se infectarem com o coronavírus.

A pesquisadora explica que o pico até dezembro ocorreu na semana epidemiológica 20, virada de maio para junho, com 33.569 mortes, ante as 23.727 esperadas conforme o balanço dos anos anteriores. 

Foi um aumento de 46% das mortes esperadas naquela semana. Durante todo o ano, a linha da curva das mortes esteve acima da curva de dados projetados com base nas médias de anos anteriores

Casos de câncer

Para oncologistas que acompanham a evolução da pandemia, a preocupação agora é com projeções que apontam 50 mil novos casos de câncer que deixaram de ser detectados no ano passado por causa da escassez de diagnósticos no período. 


"O quanto isso vai acabar resultando em mais mortes, a gente ainda não sabe mensurar", afirma a oncologista. 

"Mas quando a gente pensa em outras doenças, como as cardiovasculares, existem publicações mostrando que há, sim, um maior número de casos de pacientes que podem, inclusive, acabar morrendo em casa", diz Daniela Rosa. 

O principal problema é que as pessoas não estão fazendo os exames necessários para rastrear a doença."O diagnóstico precoce é fundamental". 


Registro Civil

"É uma situação gravíssima, porque há forte impacto direto e indireto da covid sobre o sistema de saúde, e isso vai provocar alteração até no perfil da população e na economia", diz Gustavo Renato Fiscarelli, presidente da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil). 

A entidade é parceira do grupo que trabalhou no estudo Excesso de Óbitos no Brasil, da Vital Strategies.

Segundo Fiscarelli, que dirige um cartório civil em Cotia, na Grande São Paulo, "verifica-se acréscimo absurdo no número de óbitos". 

Ele explica que a média anual de óbitos, desde 2003, era de 1,1 milhão de pessoas. 

No ano passado, por conta da pandemia, subiu para quase 1,5 milhão. 

"E aí fica claro que, mesmo somados os cerca de 250 mil da covid registrados até dezembro, há excesso de óbitos de pessoas que não tinham covid, mortos por outras doenças". 

Para ele, "isso é reflexo da covid, porque há o isolamento das pessoas, falta de tratamento,de leitos, hospitais lotados, abandono e adiamento de tratamentos regulares", enumera

Sudeste (38%), Nordeste (32%) e Norte (12%) são as regiões com mais excesso de mortalidade. O Centro-Oeste (10%) e o Sul (9%) tiveram menor impacto em 2020. 

As capitais foram mais duramente atingidas pelo excesso de óbitos, especialmente Manaus, Belém, São Luís, Fortaleza, Recife, Salvador, Rio e São Paulo. 


Fonte: Correio do Estado