Sábado, 12 de Junho de 2021

Vigilância falhou em caso de suspeito de variante da Índia


Inspeçao Sanitária no desembaque de passageiros no Terminal Rodoviário do Tietê Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Depois de desembarcar no sábado de manhã em São Paulo de um voo com origem na Índia, onde circula uma variante mais perigosa da Covid-19, um morador de Campos dos Goyatacazes pôde viajar até o Rio, onde chegou à noite e se hospedou num hotel, ao lado do Aeroporto Santos Dumont. No domingo, ele foi de carro para a cidade do Norte Fluminense e, depois, retornou para a capital na segunda-feira, onde voltou a se hospedar, em isolamento. Durante dois dias, o caso investigado circulou por três cidades e teve contato com dezenas de pessoas.

Tudo isso aconteceu porque, depois de fazer um exame RT-PCR no laboratório da Anvisa, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, o viajante foi autorizado a embarcar em outro voo até o Rio, antes de o resultado da análise sair. Somente quando ele já estava na cidade, foi constatado que o teste dele era positivo. Outras duas pessoas que tinham viajado com ele foram testadas, mas o resultado foi negativo para a presença do vírus da Covid. O GLOBO apurou que o homem, que tinha feito teste 72h antes para embarcar na Índia, que dera negativo, procurou as autoridades sanitárias porque tinha um mal-estar.

De acordo com a Secretaria estadual de Saúde, a informação sobre o caso suspeito só chegou no domingo, através do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde, de São Paulo, que teria dito que o homem não informou à Anvisa sobre a suspeita de Covid. Desde então, de acordo com a pasta, todos os passageiros do voo, que residem no Rio, já teriam sido identificados e orientados a fazer isolamento por 14 dias. Eles são acompanhados por equipes das vigilâncias sanitárias de seus respectivos municípios. Mas nem o estado nem a Latam, responsável pelo voo, informaram quantas pessoas estavam na aeronave e qual o destino delas. A empresa aérea afirmou ter repassado detalhes do voo e da lista de tripulantes e de passageiros.

No momento em que o estado foi avisado, o passageiro, já estava a 278 quilômetros da capital. A Secretaria municipal de Saúde não informou quando foi notificada oficialmente sobre a possível infecção de um morador do Rio pela cepa indiana. Ao chegar em Campos, o passageiro relatou os sintomas que tinha dor de cabeça e rouquidão a equipes médicas locais. Ele voltou ao Rio para ficar num hotel providenciado pela empresa para a qual trabalha.

As amostras coletadas do homem foram enviadas para o laboratório da Fiocruz, que vai fazer o sequenciamento genético para descobrir se o morador de Campos foi infectado pela variante. Procurada, a Anvisa disse que o passageiro embarcou com um resultado negativo de RT-PCR, que deu positivo na segunda testagem no Brasil. O órgão não explicou o motivo que levou à realização de um novo teste ou por que ele foi autorizado a embarcar em um outro avião mesmo antes de sair o resultado.

Para Lígia Bahia, especialista em Saúde Pública da UFRJ, houve falha na vigilância epidemiológica:

— O pior de tudo foi ele seguir viajando já com teste. A conduta é o pelo auto isolamento em locais adequados. Se a pessoa tiver condições, em um hotel com regras rígidas, com comida entregue no quarto e sem circulação. Se for um viajante sem dinheiro, as instituições públicas devem providenciar — diz.

 


Fonte: Globo