Sexta-Feira, 30 de Outubro de 2020

Pandemia pode alterar a rotina da alimentação saudável


Nutricionista fala sobre a fome emocional e traz dicas para melhorar a relação com a comida
Aplicativo pode prejudicar a alimentação saudável - Divulgação

Durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a rotina foi alterada profundamente. Mesmo agora que as regras de biossegurança foram flexibilizadas, alguns hábitos adquiridos durante o isolamento podem permanecer e prejudicar a adoção de uma vida saudável.  

De acordo com a pesquisa realizada no Brasil, e publicada na revista Research, Society and Development em junho deste ano, mais da metade (54%) das pessoas que ficaram em isolamento social, em algum momento da pandemia, ganharam peso e declararam estar comendo mais (55%) e com menos qualidade (44%). A pesquisa também apontou o crescimento no consumo de doces, refrigerantes, álcool, massas e itens de padaria.  

Esse fenômeno, segundo a nutricionista especializada em nutrição comportamental, Beatriz Camargo, é resultado de muitos fatores, como o relacionamento emocional que o ser humano tem com a alimentação, o uso de aplicativos de comida e a redução nos gastos com diversão, como viagens e festas.  

"O pensamento de não gastar muito com comida já não é tão frequente, porque as pessoas estão com opções de lazer muito limitadas e acabam se divertindo por meio da alimentação. E tem mais, as experiências gastronômicas ficaram mais fáceis com os aplicativos de comida, facilmente você escolhe o restaurante que quer pelo celular, em poucos minutos a comida está na porta de casa e o pagamento ainda fica só para o mês que vem", explica.

Emocional

Segundo Beatriz, uma das principais fomes é a emocional. "Na abordagem da nutrição comportamental olhamos para o comer emocional como uma das fomes principais, não tem como escapar dela. Mas o importante é a gente entender que o comer emocional, ou seja, quando comemos pra aliviar algum sentimento, não pode vir sozinho, não pode ser a única solução", frisa.

Uma alternativa é ressignificar as emoções. "Por exemplo, se estou comendo por que estou entediado, o comer não vai ajudar por muito tempo, pois quando terminar de comer o tédio voltará. Mas se eu tirar um tempo para buscar uma receita que eu gosto, escolher os ingredientes, cozinhar, e ai sim comer, eu “matei” o tédio e a vontade de uma forma mais saudável. Ou se estou comendo por estar triste, o mais indicado é procurar entender esse sentimento e achar alguém com quem dividir. Tomar sorvete quando estar triste, é diferente de comer sorvete conversando com uma amiga sobre sua tristeza, mas o importante aqui é a companhia da amiga e não o sorvete. Emoção reprimida, vira comida", pontua.

Aplicativos

Com tantas versões e restaurantes disponíveis no mercado, fugir da gula pode ser difícil. "Eu não considero que o app em si seja um problema pra quem quer comer diferente e de forma mais saudável, mas com certeza ele pode ser um facilitador para comidas mais calóricas, então quando vamos pedir comida em casa precisamos estar atentos a frequência com que pedimos, a nossa vontade genuína, estou pedindo porque de fato estou com vontade de pizza, ou porque não me organizar para cozinhar?", frisa.  

Outra dica é sempre respeitar a saciedade. "Pense na sua fome antes de pedir. Não é por que a batata frita virá de graça com o hambúrguer que você tem que pedir ela se não estiver com fome para tudo isso. Se você pediu uma pizza e no 3º pedaço já está se sentindo cheio, não coma o quarto pedaço “só por que tem”, guarde a pizza na geladeira, ou descarte", acredita.  

Para Beatriz, não é necessário tornar a comida uma vilã, mas sim ponderar sobre as necessidades para o momento. "Ter um relacionamento saudável com a comida tem um ponto principal que é: não classificar os alimentos como bons ou ruins, pois nenhum alimentos sozinho pode ser de fato ruim pra você. Quando fazemos isso fica mais fácil não se cobrar tanto de ter comido algo mais calórico por exemplo. O que temos que pensar é sempre na frequência, na quantidade, no que cabe no meu dia a dia, no que meu corpo está pedindo. Se eu como uma salada até ficar enjoada e me sentindo muito cheia, não é saudável, mesmo sendo só salada, e mostra um mau relacionamento com que estou comendo", frisa.  

Por fim, Beatriz traz algumas dicas para quem deseja reeducar a relação com a comida."A primeira dica é procurar uma nutricionista, se você quer mudar sua alimentação de forma saudável procure um profissional que você confia. Mas no dia a dia, a dica mais fácil e prática que eu dou é se perguntar antes de comer: eu estou mesmo com fome? Eu estou de verdade com vontade de comer isso, ou só quero comer por que eu sei que é gostoso?", indica.

Sobre os apps, o melhor é anotar tudo que pediu. "Eu recomendo fazer uma lista de todos os pedidos feitos no mês, anotando o dia, quanto você gastou e quantas vezes você comeu até ficar cheio demais. No fim do mês se você toma um susto com o gasto, com a frequência ou com às vezes que ficou muito cheio, comece a pedir menos comida", acredita. 

 


Fonte: Correio do Estado